A compreensão da Tricologia como elemento de afirmação da nova estética capilar negra.

Derneval Araújo
Biomédico – Tricologista
Salvador – 2010

No decorrer do tempo a humanidade vem se adequando às mudanças culturais, um exemplo disso acontece com as transformações nos estilos e penteados usados pelos negros, desde os tempos dos engenhos como escravos, até hoje com a ampliação educacional que proporcionou inserção destes em diversas áreas do conhecimento num estilo próprio. Diferente dos estilos estabelecidos no final dos anos 60 e início dos anos 70, com o movimento que teve Angela Davis como símbolo do Black Power (orgulho negro). Figuras como Jimmy Hendrix e, no Brasil, Tony Tornado, também marcam esse estilo, que simbolizava o reconhecimento social e político baseado em líderes como Martin Luther King.

No início da colonização brasileira os negros tinham costumes e estilos próprios derivados dos seus povos na Africa, porém, os senhores de engenhos reprimiam e os diferenciavam da comunidade que estavam inseridos, criando assim blocos culturais diferentes. No entanto, aquelas que tinham a oportunidade de incluir-se nos eventos dos senhores, onde as mulheres eram européias ou descendentes com cabelos lisos, era proporcionado o alisamento dos seus cabelos, imitando assim os penteados europeus.

 A moda negra foi base para muitas tendências do mundo fashion, influenciando vários setores da economia, inclusive a moda capilar. Foram os cabelos crespos do Black Power que inspiraram a onda de permanentes em cabelos lisos nos anos 80, nos anos 90 estabeleceu-se o permanente afro como forma prática de modelar o cabelo crespo. Sendo que, hoje existem duas vertentes das transformações capilares, desde o crespo ao cabelo ondulado, priorizando o liso como economia e praticidade com processos de escova sobre formulações químicas, lembrando os mesmos processos feitos nas senzalas pelas negras para alisar os cabelos; como também, a aplicação de processos rápidos de formulações químicas que permitem modificar os cabelos crespos deixando-os  soltos e cacheados naturalmente, próximo ao estilo Black Power.

 A imagem do cabelo natural passou a ser reverenciada como aquela que se contrapõe ao cabelo liso e que estaria em consonância com uma nova mentalidade do "ser negro". Como observa Olívia Cunha, "a naturalidade, por sua vez, não significa a ausência total de interferência. Mas ela é de outra natureza. Nela, a produção estética visa auxiliar e fortalecer os cabelos; o sentido é anterior à naturalidade, pois não vem como interferência externa, ao contrário, a precede". Angela Figueiredo, em um trabalho de pesquisa com negros oriundos da cidade Salvador, maior contigente de afro-descendentes fora da Africa, mostra que o discurso da naturalidade do cabelo está associado ao da aparência. Entretanto, argumenta que a "naturalidade" dos cabelos está vinculada ao "uso de interferências externas", como nos dread locks (cabelo berlotado ou enrolado típico dos rastafari), nos quais se usa a "baba do chuchu" ou cera de abelha, entre outros mecanismo artificiais.

Em última instância, falar de uma naturalidade do cabelo significa, retomando a pertinente observação de Figueiredo, remetê-la a usos em um nível mais sociológico, ou, como observa Leach, ao analisar o simbolismo do cabelo, ao uso mais público, já que se trata de um meio de comunicação. Ter um cabelo mais "natural", portanto, se torna relevante na reprodução de uma linguagem simbólica de diferença em relação ao cabelo liso ocidental, assim como serve para deixá-lo em condições "iguais", se pensamos na hierarquização de cabelos "bons" ou "ruins".

A questão é saber de que modo as diferenças naturais entre os tipos de cabelo e suas especificidades são utilizadas para pensar as diferenças na sociedade brasileira, mesmo quando só se fala do cabelo negro. Segundo Santos deixar o cabelo crescer "naturalmente" implica reconhecer a origem africana: "o cabelo africano é seco" e o conseqüente tratamento específico, que o diferencia dos demais.

Então quanto à forma de hidratar e nutrir os cabelos diferencia-se nos procedimentos entre os negros e brancos?
Pelo conhecimento científico da bioquímica, a proteína (queratina) que constitui o cabelo, é formada de dois tipos a alfa e a beta queratina, e os seus percentuais em cada fibra da estrutura do cabelo estão diretamente ligados às questões genéticas e/ou geográficas, resultando em uma variedade enorme de diferentes tipos e composições. Formando assim vários estilos tanto de cores, espessuras, resistências, grau de curvatura definindo liso ou crespo, quanto ao crescimento pouco ou normal, quanto a umidade hidratado ou seco, quanto à maciez áspero ou sedoso e etc.

Diante da diversidade de colonização na formação do povo, o Brasil tornou-se um país específico em diversificação nas variações estruturais dos cabelos, como observador de reações químicas adversas em cabelos é reconhecido que tratar cabelo no Brasil, especialmente na Bahia, nordeste brasileiro de clima quente e seco com muita poeira e salitre das praias nas regiões costeiras. Este é um estudo de caso que demora muito tempo de acompanhamento, passo a passo para obter algum resultado satisfatório, sabemos que quanto maior for o percentual de queratina amorfa (beta queratina) mais frágil será a fibra do cabelo. É observado claramente este fato entre as duas queratinas alfa e beta.
A queratina é composta por 18 aminoácidos, que estão distribuídos nos protofibrilos de forma alternada, conferindo diversas conformações à proteína, podendo ser mais enroladas ou lisas as fibras no cabelo, definindo assim se este é liso ou crespo.

Na α-queratina a estrutura helicoidal das ligações de hidrogênio são formadas entre a carbonila e grupos aminos secundários em volta adjacentes no espiral.


Figura 1 - Estruturas secundárias das proteínas: a hélice alfa.

Na β-queratina esticada, as ligações de hidrogênio ficam intermolecular em vez de intramolecular.


Figura 2 - Estrutura secundária de uma proteína do tipo b-conformação.

A tensão mecânica causa ruptura das ligações de hidrogênio no alfa-hélice e essa possibilidade é auxiliada pela ação de substâncias químicas, também com a aplicação de calor na presença de H2O. A ruptura dessas ligações de hidrogênio é necessária para a distorção da molécula, para a transformação da forma alfa para beta.


Figura 3 - Estrutura íntegra de fibra protéica da alfa queratina do cabelo.

Com o uso de produtos para alisamentos a alfa queratina é alterada em algumas ligações para a beta queratina, tornando assim mais vulnerável à torção e fácil de romper suas ligações de hidrogênios e até mesmo as ligações peptídicas entre os aminoácidos do protofibrilo.

Os produtos considerados hidratantes para usar nos cabelos processados anteriormente com produtos e/ou métodos de alisamentos, são também fórmulas químicas que interferem na estrutura da queratina, pois suas composições têm componentes como cloretos de cetil trimetil amônio componente condicionante, que age relaxando as ligações da queratina para oferecer mais sedosidade ao cabelo. Tem também componentes como glicerinas, silicones, óleo mineral e propileglicol, usados nos hidratantes para deixar nos cabelos dia a dia, com a função de baixar o volume, mas como já são cabelos processados, estes precisam de muita oxigenação, através das trocas gasosas com o meio externo, condição ideal para seu equilíbrio estático das poucas ligações agora restante depois dos processos sofridos. O uso em excesso destes produtos contendo estes componentes resultam em cabelos fracos e sem crescimento, porém não por problemas de queratinização na papila dérmica. A maioria dos profissionais da estética capilar alisam a parte crescida de aproximadamente 2cm a cada 60 dias com um produto compatível com o aplicado anteriormente, no entanto esta cliente sonha com um cabelo comprido, sonho este que nunca acontece, pois cada dois centímetros que são alisados a cada 60 dias, vão sendo destruídos diariamente nas pontas, simplesmente pelo contato com o pente ou com as mãos, é como se fosse uma fibra da teia de aranha que ao pegarmos com as mãos esta desaparece sem deixar nada, porém lembramos que este processo de transformação da alfa queratina em queratina solúvel é natural. Recordamos a bioquímica onde toda proteína tem o seu pH isoelétrico e por isso qualquer mudança do meio em que a proteína está inserida pode provocar mudança na sua conformação e também tornar-se mais solúvel e se desfazer sem deixar vestígios.
Um fato real pode ser verificado. quando uma cliente faz um permanente afro com bigudins ou não e começa a usar diariamente os produtos para manter os cachos e definir melhor a ondulação dos cabelos, forçada pelos produtos com os componentes acima citados. Se ao contrário esta cliente deseja uma mudança momentânea e solicita o seu cabeleireiro para que este faça uma escova para alisar o seu cabelo processado e o profissional resolve colocar sobre os seus ombros uma folha de papel branco, durante a execução da escova, depois ao ser visto com uma lupa, ele irá observar que sobre o papel tem vários micro-pedaços da queratina dos cabelos desta cliente no papel.
Então acredito que para fazer os cabelos étnicos processados crescerem serão necessárias algumas medidas como:

  1. Nunca usar produtos ou métodos para transformação dos cabelos em mulheres grávidas ou amamentando e em pessoas debilitadas por alguma doença ou deficiência, que comprometa a saúde da cliente e/ou do profissional;
  2. Antes de usar qualquer processo de transformação o cliente deve fazer aplicações de produtos e métodos que possam equilibrar o pHiso para cada tipo de cliente;
  3. Tratar qualquer anormalidade que esta tenha no couro cabeludo, pois o produto ou processo não pode interferir na homeostasia da pele;
  4. Ter feito hidratações com produtos adequados à necessidade de cada tipo de cabelo e processo que será usado posteriormente para transformação;
  5. Efetuar todas as normas de segurança, tanto para o cliente como para o profissional, utilizando EPIs e EPC adequados ao meio e ao método executado no momento;
  6. Antes de iniciar o processo ler todas as informações sobre os produtos e entender como executar com segurança o serviço;
  7. A aplicação deve durar somente o tempo recomendado pelas agências normatizadoras e aceitas e descritas pelo fabricante dos produtos ou equipamentos;
  8. A forma de aplicação varia conforme cada cliente, processo, produto e fabricante, então não devem infringir as regras estabelecidas nos rótulos e apostilas informativas;
  9. Ao término da aplicação dos produtos ou processos a estabilidade das condições eudérmica da pele e cabelo, devem está sob a normalidade exercida pelo uso correto e efeito adequado dos produtos ou métodos;
  10. Sempre que concluir qualquer processo de transformação nos cabelos de um cliente, deve ser indicado os produtos recomendados como adequados para manutenção pós processo, sendo que esta deverá tê-los em casa para o uso quando necessitar.  

Então para ter cabelos bonitos e saudáveis devemos procurar um profissional competente, pois a sua capacidade de ação poderá servir de apoio aos médicos, evitando assim mais danos aos clientes. Como também este ao suspeitar de alguma anormalidade através da queda brusca ou constante dos cabelos de seu cliente, deverá encaminhá-lo ao médico para que este tome as devidas medidas de prevenção ou cura.
Cabelos crespos que desejam longos devem ser tratados como jóia preciosa, pois a quantidade de queratina amorfa, nestes pode deixá-los sensíveis e com um comprimento muito pouco para o desejado pelo cliente.
A tecnologia busca intensamente na natureza a solução para vários problemas, com os cabelos não será diferente, pois empresas de cosméticos já oferecem algumas sugestões que começam a dar resultados satisfatórios. Então o cliente tem que ser curioso e exigente antes de solicitar os serviços de transformações para seus cabelos. 
Este texto direciona a prática/teórica da estética capilar, com conceitos reflexivos que fazem os profissionais da beleza traçarem caminhos mais definidos em busca do crescimento adequado a cada cabelo, seja estes de qualquer raça e cor.

 

 
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